Um âmbito social me preenche hoje a indecisão. As horas passam de um outro à vontade. Alguma certeza se acumula nos sentidos, algo mais conhecedores do propósito diurno, e a noite reside para lá dos olhos vossos. A negrura fere menos, é mais duradoiro o chão. É assim sempre que me revejo em momentos acompanhados, sempre que constato a contagem, e os trechos de essência são suficientes.
Sabes a ânsia que tolhe a calma silente de um pano de fundo, que cala o diálogo com trejeitos de verbo sem frase? É a de não ser interessante, de temer o vazio, de evitar a recursividade inerente junto às apreciações necessariamente negativas numa complexada perspectiva. É a tremura de não ter uma base de expressões persistente, um conjunto rotineiro de falas e ênfases para cada fase exterior da presença, cada estímulo mundano, cada sentimento que lógicamente se impusesse à situação. Esse baço horror compulsivo de haver uma ordem maior, um culto de personalidades agrilhoante em exigências, agressivo em julgamentos, averso à concepção e ao acto de experimentar, averso portanto àquilo onde, potencialmente, me traduzo. Esse meu retrato exagerado de uma humanidade mais imediatista e hierárquica do que talvez seja, menos positiva e acolhedora do que talvez possa ser. É ele que vislumbro, certos dias, com pena, que fora arrependimento se culpa houvera, entre os farrapos de cortinas que ele por vezes me faz ir correndo.
Mas quando a luz bate, frontal, nas faces dos passageiros reais, reflectindo a eterna Novidade em seus traços carnais e simbólicos, reanima-se a alma e a beleza. E quando ambas se dão consonantes, e as notas ecoar se permitem, reencarno a viagem que o revérbero doira, entanto escasso. E o comboio trina e galga carris de distância.